Tamandaré Web 100% Jesus

Portal de notícias da Rádio Tamandaré

Conteúdo patrocinado
6 Parques RecifeVitória 400 Anos

A Quarta Onda do Café

Como a ciência, as políticas públicas e o selo de Indicação Geográfica estão revolucionando o café especial na “Capital Pernambucana do Café”, projetando o município rumo ao mercado global da alta gastronomia.

Há 4 horas — Por Robson Júnior

Imagem sem texto alternativo.
Foto: Instagram/@seturdetaq

Erguida em meio aos contornos serranos do Agreste pernambucano, a cidade de Taquaritinga do Norte revive uma de suas eras de maior brilho econômico e cultural. Sob a liderança de novos manejos e de uma forte articulação de fomento à agricultura sustentável, o tradicional café local deixa de ser apenas uma herança secular para assumir o protagonismo como ativo gourmet de valor global.

Com raízes que remontam ao início da cafeicultura no Brasil, o município consolidou a fama de “Capital Pernambucana do Café”. Historicamente plantado sob a sombra de remanescentes da Mata Atlântica no sistema conhecido como “café sombreado”, o grão local desenvolveu características químicas e gustativas extremamente particulares. O que antes era tratado com base puramente empírica agora é validado por estudos laboratoriais aprofundados, coordenados pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), no campus de Garanhuns.

Em entrevista especial, o secretário de Agricultura, Pecuária e Meio Ambiente do município, Renan Fagundes, detalhou os complexos pilares dessa transição e revelou como a gestão pública está estruturando o futuro da lavoura serrana.

Foto: Instagram/@seturdetaq


A Retomada das Lavouras: a Virada de Chave na Produtividade

A despeito do prestígio histórico, o principal gargalo enfrentado pelo município não reside no escoamento ou na comercialização do produto final, mas, sim, em sua base produtiva primária. Décadas de declínio dos preços no mercado internacional, ocorridas no final do século XX, desestimularam as famílias agricultoras, resultando em propriedades subaproveitadas ou inteiramente abandonadas.

De acordo com Renan Fagundes, o grande desafio ao assumir a pasta foi reacender o interesse dos produtores pelo plantio, aproveitando o momento atual da chamada “quarta onda do café” no mundo, caracterizada pela valorização recorde dos grãos especiais nos mercados internacionais.

“Encontramos muitos sítios com baixa produtividade e várias propriedades outrora produtivas que estavam completamente abandonadas. Nosso papel é reacender essa chama, trazendo novas tecnologias para que o produtor colha com qualidade, em maior quantidade e reduza os custos de produção dentro de sua propriedade.”
— Renan Fagundes

Foto: Instagram/Redes sociais

Para reverter esse cenário de abandono, a secretaria adotou uma estratégia agressiva de assistência técnica sistemática e renovação de lavouras antigas. Um dos destaques dessa política foi a distribuição gratuita de mais de 10.000 mudas selecionadas de alta performance genética e adaptativa, garantindo que o pequeno agricultor tenha em mãos um material botânico capaz de responder bem aos tratos modernos.

Indicação Geográfica: a “Patente” do Terroir Serrano

O pilar mais ambicioso para posicionar Taquaritinga do Norte na elite da alta gastronomia é a estruturação da Indicação Geográfica (IG) do café serrano. Comparável a sistemas de proteção mundialmente reconhecidos como as cobiçadas regiões de Champagne, na França, ou do presunto de Parma, na Itália, a chancela de IG funciona como um selo de originalidade que comprova que as qualidades do café são indissociáveis do ecossistema local.

Para conquistar e ostentar essa marca, as exigências analíticas são rigorosas. O grão precisa alcançar mais de 80 pontos na metodologia da Specialty Coffee Association (SCA), ser cultivado acima de 600 metros de altitude e seguir um protocolo rigoroso de pós-colheita, auditado por um comitê técnico da associação local.

A base científica que sustenta essa certificação é fruto de uma pesquisa sistemática capitaneada pela Profa. Dra. Susanna, da Universidade de Garanhuns, que mapeou as propriedades químicas únicas do solo e do microclima do brejo de altitude de Taquaritinga. Esse ambiente, onde o fruto amadurece lentamente sob a sombra de árvores nativas, gera uma concentração excepcional de açúcares naturais e uma acidez perfeitamente equilibrada.

Um Município, Duas Realidades: o Olhar sobre o Cariri

O planejamento estratégico da Secretaria de Agricultura, no entanto, não se restringe às úmidas encostas cafeeiras. Taquaritinga do Norte é marcada por duas microrregiões geográficas muito distintas: a zona úmida do Brejo e a zona seca do Cariri.

Para os produtores do Cariri, onde o café não prospera devido ao clima semiárido, a prefeitura tem concentrado esforços em infraestrutura de convivência com a seca e no fomento à pecuária. Somente neste ano, foram executadas mais de 1.600 horas de trator de esteira para aração de terras e mais de 1.000 horas voltadas à limpeza e ao desassoreamento de barreiros e açudes, preparando a região para captar e armazenar o máximo de água nos períodos de chuva.

Além da segurança hídrica, a gestão tem apostado fortemente no fortalecimento da bacia leiteira caprina. Por meio de convênios estratégicos com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os criadores locais conseguem adquirir milho subsidiado com até 40% de desconto para garantir a nutrição do rebanho em épocas de estiagem, mantendo a economia da região seca ativa e competitiva.

Foto: Redes sociais/Instagram

O Futuro Escrito com Ciência

Olhando para o futuro imediato, o secretário Renan Fagundes aponta que os próximos passos da pasta serão guiados pela inovação científica e pelo fortalecimento de parcerias com grandes instituições, como o IPA, a Embrapa, a UFRPE e a Univasf.

Entre os projetos de maior destaque que devem começar a operar estão a implantação definitiva de um campo experimental de café, em parceria com a Univasf onde serão testadas mais de 20 variedades diferentes de café arábica para identificar quais respondem melhor ao solo e ao clima de Taquaritinga, e a viabilização de novos canais de escoamento e de fomento para a cadeia do leite de cabra no Cariri.

Com a ciência validando a tradição, o produtor assistido pela tecnologia e um selo internacional de origem a caminho, Taquaritinga do Norte prepara-se para consolidar não apenas o título de Capital Pernambucana do Café, mas também para se firmar como a grande referência em cafés especiais de todo o Nordeste brasileiro.


Talvez você goste