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Governo Lula aumenta 13 vezes gasto com firma da China após visita oficial

Representante da Mindray saiu de R$ 8 milhões para R$ 107 milhões em faturamento com governo após reuniões de ministros de Lula na China

Há 3 horas — Por Repórter Tamandaré

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Foto: Divulgação

Uma empresa chinesa de equipamentos médicos multiplicou por 13 vezes as vendas ao governo federal na gestão Lula (PT) meses após o ex-ministro Rui Costa (Casa Civil) e o ministro Alexandre Padilha (Saúde) fazerem visitas à China. Durante a visita, Rui Costa se reuniu com representantes dessa empresa.

Os contratos do governo brasileiro são com a Hospcom Equipamentos Hospitalares, que representa a gigante chinesa Mindray no país. A Hospcom recebeu R$ 107 milhões do governo federal em até 24 de agosto de 2026, mostram dados analisados pelo Metrópoles no Siga Brasil, sistema que registra gastos do governo federal.

Em 2025, os pagamentos se limitaram a pouco mais de R$ 8 milhões em todo o governo federal. Os contratos eram com o Ministério da Saúde, com hospitais universitários e em hospitais das Forças Armadas.

Em 2026, a Hospcom é a empresa que mais recebeu do governo federal pela venda de equipamentos médico-hospitalares. Ela ultrapassou gigantes do setor, como Philips, Siemens Healthcare, GE Healthcare e Canon Healthcare, mesmo quando se compara o desempenho recente das 100 maiores fornecedoras deste tipo de equipamento ao governo, considerando a inflação no período pós-pandemia.

Procurado, o Ministério da Saúde disse à reportagem que é “descabida” a relação entre as viagens dos ministros e o aumento dos gastos

Gastos com equipamentos médico-hospitalares em todos os órgãos do governo. Valores corrigidos pela inflação pelo IPCA. Em 2026, o valor de R$ 107 milhões é corrigido mês a mês até se chegar a R$ 108 milhões. Fonte: Siga Brasil. Elaboração: Metrópoles

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Os Estados Unidos, o segundo. Em Nova York, ontem, o presidente Lula disse que o país “não cabe no quintal de ninguém”. Lula se baseou num relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre supostas ameaças de interferências dos EUA nas eleições brasileiras de 2026.

Fontes da Abin ouvidas pela reportagem destacaram que as ameaças também vêm da China e da Rússia. Juntas com os norte-americanos, os três países tentam controlar áreas de influência no mundo, num movimento para minar o multilateralismo.

Pregão ocorreu após visita de Rui

Grande parte dos pagamentos do governo federal à representante da Mindray no Brasil decorre de um pregão realizado pelo Ministério da Saúde no final de 2025. O certame foi realizado seis meses depois de Rui Costa, da Casa Civil, ter estado na China, em abril de 2025. O petista se reuniu com representantes de empresas, inclusive da Mindray, no Novo Banco de Desenvolvimento, em Xangai. O encontro com representantes da Mindray está na agenda oficial de Rui Costa.

Por meio do PAC Saúde, a Hospcom venceu a licitação para fornecer 978 aparelhos para anestesia, monitores, sistemas de endoscopia e ultrassom portátil. Os contratos com a Saúde somam R$ 108 milhões, segundo a ata de registro de preços da disputa.

Mesmo tendo vencido a licitação em 2025, os pagamentos mais expressivos só começaram a cair na conta bancária da Hospcom depois de uma visita do ministro Alexandre Padilha à sede da Mindray, em Shenzhen (China), em março deste ano.

Segundo Padilha, “o Ministério da Saúde do Brasil atribui elevada importância à cooperação com a Mindray”. “Reconhecemos a liderança da empresa em tecnologia médica e sua contribuição crescente para o fortalecimento do setor de saúde no Brasil”, disse ele, em 17 de março deste ano. Até aquele mês, o governo federal inteiro só havia pago R$ 354 mil à Hospcom, mostram os registros do Siga Brasil. Durante todo o ano de 2025, os pagamentos foram de apenas R$ 8 milhões.

Em abril de 2026, mês seguinte à visita de Padilha, o Ministério da Saúde pagou R$ 13 milhões na conta da representante da Mindray no Brasil. Outros R$ 12 milhões foram pagos em maio.

Até 24 de agosto, os repasses acumulados ao longo do ano de todo o governo federal – Saúde, MEC e Forças Armadas – chegaram a R$ 107 milhões (R$ 108 milhões em valores corrigidos). Ainda em agosto, Weverton Coelho e seus familiares, que dirigem a Hospcom, deram uma entrevista a uma revista de negócios. Afirmaram que a empresa faturou R$ 240 milhões em todo o Brasil em 2025. Ou seja, os pagamentos do governo federal nos primeiros oito meses de 2026 equivalem a 45% do faturamento da Hospcom em todo o ano de 2025. A família projetava vender R$ 500 milhões nos próximos anos.

Na entrevista à revista Exame, Gabriel Coelho, filho de Weverton Coelho, diz que a empresa “participa da definição das especificações técnicas antes mesmo da licitação”.

Ministério diz que economizou com contratações

A Mindray, sua representante Hospcom, a Casa Civil e o Ministério da Saúde negaram relação entre o aumento de vendas e pagamentos e as reuniões prévias dos ministros na China. A reportagem pediu entrevistas com os ministros Alexandre Padilha, da Saúde, e Rui Costa, ex-titular da Casa Civil, mas ambos se recusaram conversar com o Metrópoles.

A assessoria do Ministério da Saúde disse que a contratação da Hospcom foi feita em licitações cujos “lances vencedores foram até 49,6% menores que dos demais concorrentes – o que representa economia de R$ 94,8 milhões aos cofres públicos”. Os pagamentos só se iniciaram depois da visita de Padilha à China, mas a pasta diz que é “descabida” a relação com a viagem.

“Os pagamentos são feitos conforme a entrega dos produtos e os processos de verificação internos” – Assessoria do Ministério da Saúde

O Ministério disse que, durante a viagem à China, foram feitos contatos com 18 empresas. “Desde 2025, foram mais de 50 reuniões com empresas do setor saúde, associações empresariais, órgãos governamentais e hospitais em países como China, Índia, Coreia do Sul, Reino Unido, Alemanha e França.”

A Mindray afirmou, em nota, que o aumento de negócios e pagamentos relacionados à representante Hospcom decorre de “operações comerciais e de processos de contratação específicos, conduzidos de acordo com as condições comerciais e os procedimentos estabelecidos”. “A Mindray também não estabelece qualquer relação entre suas atividades comerciais e agendas ou visitas oficiais de autoridades brasileiras ao exterior”, continuou.

O fundador da Hospcom, Weverton Coelho, afirmou ao Metrópoles que atuou na licitação, um pregão eletrônico. Segundo ele, a empresa conseguiu baixar bastante os preços.

“Nosso esforço em preço foi gigantesco” – Weverton Coelho, fundador da Hospcom

O empresário afirmou que não conhece gestores do Ministério da Saúde e que só os encontrou pessoalmente em uma solenidade em Brasília durante a assinatura do contrato. Em nota, a empresa complementou dizendo que “a concentração de pagamentos em determinado período está relacionada à execução dos contratos e ao respectivo ciclo administrativo de fornecimento, recebimento, liquidação e pagamento”.

Em nota, a Casa Civil afirmou que a agenda do ex-ministro Rui na China, em 2025, teve caráter “institucional” e foi feita com várias empresas, não somente a Mindray. A segunda reunião ocorreu em Brasília com representantes da empresa em julho de 2025 e participação de técnico que estava na China. O encontro serviu à “apresentação das soluções e dos planos da empresa relacionados à pauta de hospitais inteligentes”. “A participação de representantes da Casa Civil nessas agendas não teve relação com processos de contratação ou pagamentos”, afirmou a Casa Civil.

COM INFORMAÇÕES DE METRÓPOLES

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