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Do Chão de Fábrica ao Centro do Poder: Como Luiz Inácio Virou Lula

De torneiro mecânico e líder sindical no ABC Paulista a uma das figuras mais conhecidas da política brasileira, a trajetória de Luiz Inácio da Silva começou a ganhar projeção nacional ainda nos anos 1970

Agora — Por Robson Júnior

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Foto: Reprodução redes sociais/Google

Antes de ser conhecido simplesmente como Lula, Luiz Inácio da Silva era um torneiro mecânico que começava a ganhar espaço no movimento sindical do ABC Paulista. Em 15 de julho de 1975, uma pequena nota publicada na página 22 da Folha de S.Paulo, intitulada “Apreensão em São Bernardo”, registrava a preocupação dos metalúrgicos da Volkswagen com férias coletivas e possíveis demissões. Entre as declarações citadas pelo jornal estava a do então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Luís Inácio da Silva. Era uma aparição discreta na imprensa, mas que antecedia uma trajetória que, poucos anos depois, colocaria seu nome no centro das principais transformações políticas do país.

O despertar no ABC

Nascido em Pernambuco, em 1945, Luiz Inácio migrou ainda criança para São Paulo e formou-se torneiro mecânico pelo SENAI. Sua aproximação com o sindicalismo ocorreu, em parte, por influência do irmão mais velho, Frei Chico. Nos anos 1970, enquanto o Brasil vivia sob regime militar e os trabalhadores enfrentavam o chamado arrocho salarial, a insatisfação crescia nas fábricas do ABC Paulista. Em 12 de maio de 1978, funcionários da Scania, em São Bernardo do Campo, cruzaram os braços, dando início a uma onda de mobilizações que se espalharia por outras empresas da região. O movimento projetou nacionalmente Lula, então com 32 anos, como uma liderança sindical de discurso direto e capaz de dialogar com uma parcela significativa dos trabalhadores.

Da liderança sindical à fundação do PT

Com o crescimento de sua popularidade, Lula passou a ocupar espaço cada vez maior na imprensa e concedeu entrevistas que também renderam controvérsias. Em algumas delas, falou sobre diferentes personagens históricos e políticos, incluindo nomes como Che Guevara, Mao Tsé-Tung e Adolf Hitler ao tratar de características relacionadas à liderança e à capacidade de mobilização. Paralelamente, defendia que os trabalhadores deveriam construir uma organização política própria, sem ficar subordinados à oposição tradicional ao regime militar. A ideia aproximou sindicalistas, intelectuais, religiosos ligados à Teologia da Libertação e militantes de esquerda, até que, em 10 de fevereiro de 1980, no Colégio Sion, em São Paulo, foi fundado o Partido dos Trabalhadores. A criação do PT marcou uma nova etapa na trajetória de Lula, que começava a deixar o espaço exclusivamente sindical para entrar definitivamente na disputa política nacional.

Prisão e projeção nacional

A relação de Lula com o regime militar se agravou durante as greves de 1980. Em abril daquele ano, o Ministério do Trabalho decretou intervenção no sindicato dos metalúrgicos e Lula foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, permanecendo 31 dias preso. O episódio, porém, não interrompeu sua trajetória política e contribuiu para ampliar sua projeção para além do ABC Paulista. Depois de deixar a prisão, Lula intensificou seus contatos com movimentos e governos de esquerda da América Latina, incluindo viagens a Cuba e à Nicarágua. Naquele período, também defendia a construção de um “socialismo à brasileira”. Algumas de suas declarações provocaram fortes reações na imprensa e entre lideranças políticas, entre elas Leonel Brizola, que fez críticas públicas ao dirigente petista.

O primeiro teste nas urnas

Em 1982, Lula enfrentou seu primeiro grande teste eleitoral ao disputar o governo de São Paulo pelo PT com o lema “Trabalhador vota em trabalhador”. Terminou a eleição em quarto lugar, com cerca de 10% dos votos. O resultado levou o partido a discutir sua estratégia e a distância entre seu discurso político e as demandas imediatas do eleitorado. Poucos anos depois, durante a transição para a democracia, o PT adotaria novamente uma posição própria ao decidir não participar da votação do Colégio Eleitoral que escolheu Tancredo Neves para a Presidência. Parlamentares que contrariaram a orientação partidária e votaram em Tancredo foram expulsos da legenda, em uma decisão que reforçou a postura independente que o partido buscava construir naquele período.

Da Constituinte ao crescimento do PT

Em 1986, Lula foi eleito deputado federal por São Paulo e terminou a eleição como o parlamentar mais votado do país. Na Assembleia Nacional Constituinte, participou dos debates que resultariam na Constituição de 1988, defendendo, ao lado da bancada petista, propostas como a estatização de instituições financeiras e uma interpretação ampliada da função social da propriedade. Apesar de reconhecer avanços no texto constitucional, o PT votou contra a versão final por considerá-la insuficiente diante das propostas defendidas pelo partido. Ao mesmo tempo, a legenda começava a ampliar sua presença eleitoral. Nas eleições municipais de 1988, conquistou prefeituras importantes, como São Paulo, com Luiza Erundina, e Porto Alegre, com Olívio Dutra, demonstrando que o partido começava a ultrapassar suas bases sindicais e a se consolidar como uma força política nacional.

Quando Luiz Inácio virou Lula

Entre as greves do ABC e a redemocratização, Luiz Inácio da Silva deixou de ser apenas um líder sindical para se transformar em uma liderança política nacional. Sua origem operária, a projeção conquistada nas mobilizações dos metalúrgicos, a fundação do PT, a prisão durante o regime militar, as disputas eleitorais e sua atuação na Constituinte ajudaram a construir uma trajetória que ultrapassou os limites do movimento sindical. Foi nesse percurso, entre o chão de fábrica do ABC e as disputas políticas da redemocratização, que Luiz Inácio passou a ser reconhecido nacionalmente como Lula um nome que, a partir dali, ocuparia espaço permanente na história política brasileira.

Fonte e base de pesquisa: artigo elaborado por Robson Júnior, comunicador e estrategista de conteúdo eleitoral, com base nas informações, relatos e arquivos históricos apresentados no documentário “Como Luiz Inácio virou Lula”, produzido e publicado pelo canal Spotniks.

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