
Presente em 24 municípios de cinco estados do Nordeste, Instituto PIPA acompanha famílias desde a gestação até os 3 anos da criança, com informações e apoio psicológico para a população em situação de vulnerabilidade
“Você não se sente sozinha.” É assim que Fabiana Dias resume o acompanhamento que recebeu durante uma gravidez de risco. Atendida pelo Instituto Instituto Primeira Infância Plantar Amor (PIPA), ela conta que ter alguém para orientar e tirar dúvidas fez diferença naquele período. “Minha maternidade teria sido outra não fosse essa minha Estrela Guia.” Estrela Guia é o nome dado à consultora que a acompanha, por todo o período, desde a gestação até os três anos da criança, de maneira híbrida e continuamente disponível via Whatsapp.
O relato ajuda a colocar em pauta um tema que ganha destaque com o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro: a saúde emocional de quem cuida de bebês e crianças pequenas. A chegada de um filho muda a rotina, as relações e a vida da família. Para muitas mulheres, esse período também pode vir acompanhado de cansaço, ansiedade, solidão e falta de apoio.
Uma pesquisa realizada em âmbito nacional “Nascer no Brasil 1“, mostra que cerca de 26% das mães apresentam transtorno mental comum, como ansiedade, sintomas depressivos, irritabilidade e insônia. Entre as mulheres identificadas com o problema, a maioria (70%) não havia procurado atendimento profissional.
É nesse cenário que atua o PIPA. Criado em Pernambuco, o programa está presente em 24 municípios de Pernambuco, Alagoas, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte e acompanha famílias desde a gestação, com atenção tanto ao desenvolvimento da criança quanto às condições de quem está à frente do cuidado.
O contato com as famílias é feito pelas Estrelas Guias, profissionais que acompanham mães e cuidadores, orientam sobre as necessidades da criança e acionam especialistas quando necessário. O atendimento combina encontros presenciais, conversas por WhatsApp, videochamadas e conteúdos produzidos de acordo com cada fase do desenvolvimento.
Uma análise feita pela Universidade Federal de Pernambuco com 208 conversas entre mães e Estrelas Guias encontrou relatos de mulheres que passaram a se sentir menos sozinhas, mais acolhidas e mais seguras para lidar com a rotina dos filhos. O estudo também apontou maior compreensão sobre o desenvolvimento infantil entre as participantes.
Os resultados aparecem também no acompanhamento das crianças. Entre aquelas que estavam em situação de alerta ou abaixo do esperado para a idade, 72% avançaram em pelo menos um dos domínios avaliados pela escala ASQ-3, utilizada para observar diferentes áreas do desenvolvimento infantil.
“Quando falamos de primeira infância, precisamos olhar também para quem passa o dia cuidando daquela criança. Muitas vezes, a mãe precisa de orientação, de escuta e de alguém que a ajude a encontrar um caminho. Esse apoio repercute dentro de casa e na própria relação com a criança”, afirma Rogério Morais, diretor-executivo do Instituto PIPA.
O PIPA também prepara uma nova etapa de avaliação do programa. Em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, será realizado um estudo longitudinal com 600 famílias, com acompanhamento ao longo de 12 meses. Entre os pontos observados estarão a saúde mental das mães, a relação entre adultos e crianças e o desenvolvimento infantil.
A experiência acumulada nos territórios também vem sendo usada para ampliar o alcance da metodologia. Depois de vencer o Good Start Challenge, competição internacional que reuniu mais de mil iniciativas, o Instituto passou a trabalhar na expansão do modelo, inclusive por meio de parcerias com governos e organizações locais. A meta é chegar a 1 milhão de famílias até 2035.
O debate sobre saúde mental materna também passa pela chamada matrescência, termo usado para falar das mudanças físicas, emocionais e sociais vividas pela mulher quando se torna mãe. É uma transformação que nem sempre recebe atenção na mesma medida em que se fala sobre gravidez, parto e cuidados com o bebê.
“Para o PIPA, trazer esse tema para o Dia Mundial da Saúde Mental ajuda a lembrar algo básico, mas ainda pouco discutido: a criança não cresce separada de quem cuida dela. Olhar para a mãe, o pai ou o cuidador também faz parte do cuidado com a primeira infância”, Morais.
O Programa PIPA na prática
Criado no Recife (PE) pelo Instituto Primeira Infância Plantar Amor (PIPA), com apoio técnico do Tempojunto, o Programa PIPA funciona como uma linha direta entre mães de crianças na primeira infância (desde a gestação) e uma rede de apoio pronta para atendê-las. A ideia é simples e urgente: garantir que cada uma delas saiba que não está sozinha. O programa opera por meio das Estrelas Guias, profissionais que acompanham as mães de perto, conversam, entendem a situação de cada uma e fazem a ponte com terapeutas, pedagogos, psicólogos e outros especialistas. O modelo funciona de maneira híbrida, combinando um primeiro contato presencial com acesso contínuo por WhatsApp, videochamadas e conteúdos personalizados para o acompanhamento do bem-estar materno, com articulação do acesso a especialistas quando preciso. A tecnologia amplia o alcance, mas preserva o que o instituto considera central: uma pessoa do outro lado da conversa.
A cada dois meses, as famílias recebem em mãos a Caixa PIPA: um kit com objetos para o desenvolvimento da criança, um livro para leitura compartilhada e um brinquedo que aproxima mãe e filho. Ler e brincar também são formas de cuidar, e de reduzir o estresse que muitas dessas mulheres enfrentam diariamente.
Além disso, o programa oferece encontros formativos híbridos que ampliam o repertório das famílias sobre desenvolvimento infantil, parentalidade e autocuidado. As apresentações, orientações, atividades e materiais são baseadas numa metodologia que contempla tanto o bem-estar da mãe ou cuidador quanto as etapas de desenvolvimento do bebê e da criança.
Hoje o Programa PIPA está presente em 24 municípios de cinco estados do Nordeste: Pernambuco, Alagoas, Bahia, Ceará e Rio Grande do Norte. O desenho de escala apresentado ao Good Start Challenge parte de um universo de 9,4 milhões de famílias de baixa renda com crianças de até 6 anos inscritas no Cadastro Único, com foco inicial em gestantes e mães de crianças de até três anos.




