
Ao analisar as últimas duas décadas da política pernambucana, é possível identificar um padrão recorrente: o crescimento do PSB no estado ocorreu simultaneamente à redução do protagonismo do PT.
Essa afirmação não nasce de ressentimento, mas da observação cronológica dos principais processos eleitorais.
2006: o início da inflexão
Em 2006, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançava índices de aprovação próximos a 80% em Pernambuco, com enorme capacidade de transferência de votos.
O cenário indicava que o PT teria condições naturais de liderar a disputa pelo Governo do Estado. O nome era Humberto Costa.
Entretanto, o então ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, decidiu disputar o mesmo espaço político.
À época, Eduardo aparecia atrás nas pesquisas, mas adotou uma estratégia decisiva: pressionou Lula para que mantivesse dois palanques presidenciais em Pernambuco, um apoiando Humberto e outro o apoiando.
O argumento central era que uma candidatura única do campo governista poderia ser derrotada por Mendonça Filho.
O resultado foi a fragmentação do campo lulista no primeiro turno. Eduardo Campos foi ao segundo turno e venceu a eleição.
Foi apenas disputa legítima entre aliados ou ali se inaugurava um movimento de reconfiguração de forças no campo progressista estadual?
Recife: a disputa municipal e a reorganização do tabuleiro
Na eleição municipal seguinte, o PT governava o Recife com João da Costa, que possuía direito institucional à reeleição.
O que ocorreu foi incomum: o prefeito foi retirado da disputa após intensas disputas internas. Lideranças como João Paulo e Humberto Costa divergiram quanto à condução do processo.
Em meio ao desgaste petista, o PSB inicialmente sinalizou apoio, mas posteriormente lançou candidatura própria com Geraldo Júlio, um nome técnico, pouco conhecido eleitoralmente.
Resultado: vitória do PSB e consolidação de sua hegemonia na capital.
Foi uma consequência natural da crise interna do PT ou houve leitura estratégica do momento para ocupar definitivamente o espaço?
O padrão que se repete
Ao longo dos anos seguintes, inclusive no período posterior ao impeachment de Dilma Rousseff, o PSB manteve sua centralidade no estado, enquanto o PT passou a disputar posições secundárias, frequentemente como coadjuvante em chapas majoritárias.
Nas eleições mais recentes, João Campos fez declarações públicas afirmando que o PT não integraria seu eventual governo.
Isso não é trivial. Declarações públicas delimitam campo político.
Trata-se apenas de autonomia partidária ou de um projeto de hegemonia que pressupõe a redução estrutural do PT em Pernambuco?
O ponto atual
Diante desse histórico, surge uma dúvida legítima: Em disputas futuras, inclusive ao Senado, haverá cooperação real ou competição calculada?
O objetivo é vencer eleições mantendo pluralidade no campo progressista ou concentrar poder sob uma única liderança partidária?
Não se trata de demonizar o PSB.
Nem de absolver os erros internos do PT, que existiram e contribuíram para esse processo.
A questão é outra: há um método político em curso desde 2006?
Se há, é legítimo, mas precisa ser reconhecido.
E se não há, por que os resultados se repetem sempre na mesma direção?
Érico Santos




